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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Dilúvio

Dilúvio






há três dias
sete horas
nove minutos
e onze segundos


minhas heterôminas
estão em assembleia
pauta única:
o que ocorrer


nada será deliberado
admiro a organização
de Pessoa.


Daniela Galdino

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

estar sozinho


quando você pensa em quantas vezes
tudo dá errado
você começa a olhar para as paredes
e permanece lá dentro
porque as ruas são o
mesmo filme antigo
e todos os heróis acabam como
o velho herói do filme:
bunda gorda, cara gorda e o cérebro
de um lagarto.

não é de admirar que
um homem sábio irá
escalar uma montanha de 10.000 pés
e sentar-se lá esperando
e vivendo de baga de arbusto
em vez de apostar em duas covinhas dos joelhos
que certamente não vão durar a vida inteira
e 2 em cada 3 vezes
não sobreviverá por uma noite.
montanhas são difíceis de escalar.
as paredes são suas amigas.
conheça suas paredes.
o que eles nos deram lá fora
é algo que mesmo as crianças
se cansaram.
Permaneça com suas paredes.
elas são o amor mais verdadeiro.
construa onde ninguém constrói.
é o último caminho que resta.




You Get So Alone At Times That It Just Makes Sense, Bukowski

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Libertação (Maria Luíza Nora)

Prelúdio:
NÃO RESOLVE
Estou só.
Matar-me
seria apenas abrir mão do futuro.
Mas o que incomoda 
é o passado.
 - Nora



LIBERTAÇÃO

Um terço da minha paixão 
ficou na lagoa
um terço ficou no rio
e um terço ficará no mar.
As forças da África 
os ancestrais poderes dos Orixás
ajudarão a exorcizar a paixão
que acabaria por me acabar.
Os três elementos
e seu simbolismo:
o que reveste 
o que vem de dentro 
e o que domina o mundo.
Eu os passei pelo corpo e invoquei à África-mãe 
que me libertasse...
Ela que tão bem sabe
quanto é trágico ser cativa.
E eu os passei pela cabeça 
pedindo que meus pensamentos 
dele se afastassem.
E eu os passei no coração
para que meus sentimentos 
a ela não se dirigissem;
passei em meu sexo 
para nunca mais o desejar
aos braços pedi 
que não o buscassem
às mãos, que não tateassem 
a sua procura 
e às pernas e pés
que nunca mais 
caminhassem em sua direção.
E pedi também
que o vazio que vai ficar
seja grande e digno 
do amor que foi
e que já não merece ser.

- Maria Luíza Nora


Epílogo:


PARTIR
Partir... ir embora;
Partir... quebrar.
Dois sentidos tão diversos
e tão entrelaçados.
Tão difícil partir
e permanecer inteira.

- Nora

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Desânimo (Maria Luíza Nora)


Cuspir a cara da vida
(certeza que ele morreu)
cuidar de partir para sempre
fugindo do esquema 
que nunca foi seu.

Buscar a tragédia, a loucura 
provar o gosto do mar
tomar um banho de chuva
e, se enxugando, chorar.

Olhar o tédio, o vazio 
ouvir o vento soprar
cortar-se 
e não dar os pontos
tranquila deixar sangrar.




bonus track: 

GUILHOTINA (Maria Luíza Nora)
O pior da guilhotina
é esperar por ela;
é saber que ela vai desabar.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Des Apaixonar



Nunca diga te amo se não te interessa. 
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem. 

Nunca toque numa vida se não pretende romper um coração. 
Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti. 

A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.

(Mário Quintana)

Quando você se sentir carente, lembre-se: Jesus te ama. ♥

Então é Natal   Dia dos Namorados.
Dia bonito, capitalista, para celebrar o amor e o dinheiro, dia de dar presentes para esconder as falhas diárias da relação, dia de se fazer o que não se faz o ano todo: amar.
E também é dia de gente chata carente encalhada solteira reclamar da própria sorte; na verdade quem mais festeja o ~valentine's day~ é justamente a galera que não tem um ~valentine~. Coisa doida né? Eu explicava isso ontem para uma amiga durante o II Sarau do Centro Acadêmico de Letras Ruy Póvoas, aqui da UESC, que foi MA-RA-V-I-LHO-SO por sinal. A galera solteira mimizenta fala tanto sobre o dia, reclama tanto, que de forma inconsciente, serve de publicidade para essa data capitalista. Fora que muitos tem a concepção de que "Já que não tenho namorado, vou comprar presente pra mim" (nada contra o amor-próprio, apenas contra o consumismo rs) e se AFOGAM em sorvete, doces, balas, brigadeiro etc etc para se desligar da ~tristeza~. De fato, só quem vive o dia dos namorados são os solteiros, porque gente que tem namoradx tá preocupado em FODER. Perceba que eu não disse "fazer amor", "nheco nheco", "fazer ousadia", "fazer menino", "trocar afeto", não, eu disse "foder". E tem maneira melhor, minha gente?
Eu, particularmente, transcendi essa questão dessa data. Justamente por entender o cunho capitalista por trás da coisa toda. Minha gente, o amor deve ser festejado todos os dias. O relacionamento tem que ser uma escolha diária. A paixão deve renascer todos os dias. E para presentear não precisa ser uma data específica.
Amem mais, consumam menos.

E pra quem sofre, vou deixar um drops ai pra vcs:






"Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração

parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção.
Pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e neste momento houver o mesmo brilho intenso entre eles,
fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando
desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso,
se o beijo for apaixonante e os olhos encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração,                                                                                                          agradeça: Deus te mandou um presente divino: o amor.
Se um dia tiver que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.
Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.
Se você conseguir em pensamento sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado… se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados…
Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite…
se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma,
um futuro sem a pessoa ao seu lado…
Se você tiver a certeza de que vai ver a pessoa envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção de que vai continuar sendo louco por ela… se você preferir morrer antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. É uma dádiva.
Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.
Ou às vezes encontram e por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.
É o livre-arbítrio.
Por isso preste atenção nos sinais, não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor."
(Carlos Drummond de Andrade)



terça-feira, 10 de junho de 2014

Fernandizando a Vida: Ah, um soneto...

AH,UM SONETO...
Meu coração é um almirante louco 
que abandonou a profissão do mar 
e que a vai relembrando pouco a pouco 

em casa a passear, a passear ...

No movimento (eu mesmo me desloco 
nesta cadeira, só de o imaginar) 
o mar abandonado fica em foco 
nos músculos cansados de parar.



Há saudades nas pernas e nos braços. 
Há saudades no cérebro por fora. 
Há grandes raivas feitas de cansaços.



Mas — esta é boa! — era do coração 
que eu falava... e onde diabo estou eu agora 
com almirante em vez de sensação? 




Álvaro de Campos (heteronimo de Fernando Pessoa)

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Fernandiando a vida: Em reformas.

Agora um poema:
 
"Poema em Linha Reta"
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
 
 
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.